
Foto: Divulgação
A captura de Nicolás Maduro por forças americanas, anunciada em 3 de janeiro de 2026, não é um episódio isolado nem um simples fato policial. É o colapso do principal pilar financeiro e logístico que sustentou, por décadas, o poder do Foro de São Paulo na América Latina.
A operação dos Estados Unidos foi o desfecho de uma escalada calculada. Primeiro vieram as sanções reforçadas. Depois, o bloqueio naval no Caribe. Em seguida, ataques sistemáticos às rotas do narcotráfico e à infraestrutura usada para escoar petróleo ilegal. O alvo nunca foi apenas Maduro. O alvo sempre foi a engrenagem.
Criado em 1990 por Lula e Fidel, o Foro de São Paulo se apresentou como um espaço de articulação política da esquerda após o fim da Guerra Fria. Na prática, tornou-se uma rede continental de proteção mútua, financiamento cruzado e legitimação de regimes autoritários.
A Venezuela chavista foi o coração desse sistema. Desde a ascensão de Chávez, o petróleo deixou de ser apenas um recurso econômico e passou a ser instrumento político. A PDVSA virou um banco paralelo, fora de controles institucionais, usado para sustentar aliados internos, exportar influência e financiar projetos ideológicos no exterior.
Com a morte de Chávez, aprofundou o modelo. Quando a economia formal entrou em colapso, a ditadura passou a depender cada vez mais de receitas ilícitas. O narcotráfico deixou de ser tolerado para se tornar parte estrutural do regime, com apoio direto de setores das Forças Armadas no chamado Cartel dos Sóis.
As delações de expuseram o funcionamento desse esquema. Segundo Carvajal, ex-chefe da Inteligência da Venezuela, dinheiro do petróleo e da cocaína financiou campanhas eleitorais, comprou apoio diplomático e ajudou a manter governos alinhados ao Foro de São Paulo em vários países. Não era solidariedade ideológica. Era negócio.
O método era conhecido: controle do Estado, aparelhamento das instituições, eliminação da oposição e manipulação eleitoral. Na Venezuela, adversários foram presos, inabilitados ou forçados ao exílio. O sistema eleitoral virou ferramenta do regime. Quando a própria empresa responsável pelo software denunciou fraude, o Foro colocou debaixo do tapete, mostrando sua conivência.
O resultado dessas políticas está à vista. Onde o modelo socialista se consolidou, surgiram fome, hiperinflação, repressão e êxodo em massa. A Venezuela não é exceção. É a versão mais crua de um projeto que sempre produziu miséria, independentemente do discurso que o embala.
A virada veio com a volta de à Casa Branca. A estratégia mudou: combate direto ao narcoterrorismo, proteção de interesses americanos na região e pressão real sobre regimes autoritários. Não por altruísmo, mas por cálculo geopolítico. E também por interesse econômico, assim como o tem a China e a Rússia, agora afastadas neste caso.
Com Maduro fora de cena, o Foro de São Paulo perde seu principal caixa. Sem o dinheiro do petróleo venezuelano e das rotas de drogas, a capacidade de financiar eleições, sustentar ditaduras e manter redes transnacionais enfraquece drasticamente.
O dia seguinte (day after) venezuelano ainda é incerto. Pode haver uma transição negociada, com reconstrução institucional e eleições livres. Ou um período turbulento, com disputas internas e forte pressão internacional. Mas uma coisa é clara: o modelo anterior ruiu e os EUA irão bancar a redemocratização da Venezuela.
Para o Brasil, o impacto é direto. Em ano eleitoral, a queda do principal financiador do projeto bolivariano expõe a fragilidade de alianças regionais e cria constrangimentos políticos difíceis de esconder. Isso ficou bem visível com a reação do Itamaraty logo que a notícia da captura de Maduro repercutiu.
Importante saber não é apenas se a Venezuela mudou. É se a América Latina está finalmente assistindo ao fim de um sistema que sobreviveu por décadas à base de fraude, repressão e dinheiro sujo e que, pela primeira vez, perdeu sua fonte vital.
Zizi Martins é Procuradora do Estado, especialista e mestre em direito administrativo, master em Gestão Pública, doutora em educação, e pós-doutora em Política, Comportamento e Mídia. Articulista da Gazeta do Povo e comentarista política do Jornal Comunica Brasil.
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