O empresário Maurício Camisotti, preso desde setembro sob suspeita de participação em um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, firmou acordo de delação premiada com a Polícia Federal. A colaboração, já formalizada, foi encaminhada ao ministro André Mendonça, que deverá avaliar a validade jurídica do acordo.
Segundo as investigações, Camisotti é apontado como um dos principais articuladores de um esquema que operava por meio de entidades associativas. Ele teria controle sobre organizações como a Ambec, a Unsbras e o Cebap, utilizadas para realizar descontos em benefícios previdenciários, muitas vezes sem autorização dos segurados.
Os números envolvidos chamam atenção: apenas no último ano, essas entidades movimentaram cerca de R$ 580 milhões. Quando considerado o período desde 2021, o volume total chega a aproximadamente R$ 1 bilhão — indício da dimensão do esquema investigado.
A delação é a primeira firmada no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura fraudes estruturadas contra aposentados e pensionistas. A expectativa é de que o acordo traga novos detalhes sobre o funcionamento da rede, incluindo possíveis conexões com outros agentes públicos e privados.
Outros nomes citados nas investigações, como o lobista conhecido como “Careca do INSS”, além de ex-integrantes do próprio instituto, também negociam acordos de colaboração, o que pode ampliar o alcance das apurações.
O caso teve origem em uma série de reportagens que expuseram o crescimento expressivo da arrecadação dessas entidades, mesmo diante de milhares de processos por fraudes em filiações. As revelações levaram à abertura de inquérito pela Polícia Federal e à atuação da Controladoria-Geral da União.
As consequências políticas já são visíveis: o escândalo culminou na saída do então ministro da Previdência, Carlos Lupi, e aumentou a pressão sobre o governo federal, especialmente diante de falhas na fiscalização de descontos aplicados diretamente sobre benefícios de aposentados — um dos públicos mais vulneráveis do país.
Com a delação, a expectativa é de que novas informações aprofundem o caso e reforcem cobranças por responsabilização, em um episódio que expõe fragilidades na gestão e no controle do sistema previdenciário brasileiro.