O aumento contínuo dos preços de itens básicos tem pressionado o orçamento das famílias brasileiras e contribuído para o avanço do endividamento no país. Levantamentos recentes apontam que despesas essenciais, como alimentação, aluguel, saúde e energia, passaram a consumir parcela cada vez maior da renda doméstica.
Desde o início da pandemia, em 2020, a alimentação acumulou alta de 83,1%, enquanto os aluguéis subiram 51,1%. Medicamentos e serviços de saúde ficaram cerca de 55% mais caros no mesmo período. Já a inflação média da economia acumulou 41,8%, segundo dados citados do IBGE.
O impacto tem reduzido o espaço para consumo, lazer e poupança. Atualmente, cerca de 30% da renda familiar já estaria comprometida com dívidas, patamar considerado recorde e que o governo tenta conter por meio do programa Novo Desenrola.
Mesmo com melhora nos indicadores de emprego e aumento da renda média, especialistas afirmam que o ganho financeiro não tem sido suficiente para compensar a escalada do custo de vida.
O economista Francisco Pessoa Faria, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que o aumento da renda não significa necessariamente maior poder de compra.
Segundo ele, novas despesas passaram a fazer parte do orçamento fixo das famílias nos últimos anos, como internet, plataformas de streaming, aplicativos de transporte e serviços de entrega.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que a alimentação já consome 28,6% da renda das famílias de baixa renda, contra 25,8% registrados em 2020. No mesmo intervalo, o rendimento médio cresceu 12% acima da inflação, sem reflexo proporcional no consumo das famílias.
Outro fator apontado como agravante é o custo do crédito. Com juros elevados, muitas famílias recorrem ao rotativo do cartão de crédito e ao cheque especial para cobrir despesas básicas.
“Não há orçamento que dê conta”, afirmou o economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, ao comentar o impacto combinado entre inflação persistente e crédito caro.
Além dos alimentos, os custos de serviços essenciais também avançaram fortemente nas últimas décadas. Segundo levantamento citado pela Abrace Energia, a conta de luz acumulou alta de 401,4% entre 2000 e 2024, acima da inflação média do período. A tarifa de água subiu 621%, enquanto o gás acumulou aumento superior a 700%.
Especialistas avaliam que o cenário amplia a sensação de perda de bem-estar econômico, mesmo diante de indicadores positivos no mercado de trabalho.
Para a professora Juliana Inhasz, do Insper, quando despesas essenciais sobem acima da inflação média, o impacto é sentido diretamente pelas famílias, sobretudo as de menor renda.