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Governo pressiona Congresso e culpa rentistas, mas evita enfrentar privilégios internos
Governo pressiona Congresso e culpa rentistas, mas evita enfrentar privilégios internos
Gleisi Hoffmann defende medidas impopulares, fala em "milagre" para justificar demora nas emendas e desvia de temas como supersalários e reforma militar
Por: Redação
16/06/2025 às 11:55

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Na tentativa de conter a crise política causada pelo novo pacote fiscal, o governo federal escalou a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), para defender medidas impopulares e responder à crescente insatisfação no Congresso. Em entrevista ao Valor Econômico, publicada nesta segunda-feira (16), Gleisi adotou um tom duro, responsabilizou o Congresso por possíveis cortes nas emendas e culpou o “rentismo” por resistências às propostas da Fazenda.
A entrevista ocorreu no mesmo dia em que a Câmara vota a urgência do projeto que tenta derrubar o aumento do IOF — medida que gerou forte reação entre parlamentares e setores econômicos. Segundo Gleisi, caso o Congresso derrube a medida, será necessário um novo contingenciamento orçamentário, com impacto direto nas emendas parlamentares. A declaração foi interpretada por aliados e opositores como uma espécie de chantagem institucional.
“Se não aprovarmos as medidas, vai ter corte. E as emendas são parte disso”, alertou a ministra, tentando transferir ao Legislativo a responsabilidade por um eventual desgaste com suas bases. Em plena pré-campanha, o recado irritou deputados, que vêm cobrando justamente a liberação dos recursos prometidos.
Impostos para uns, silêncio para outros
Enquanto justifica aumento de impostos para investidores — definidos genericamente como “rentistas” —, o governo evita tocar em temas que, de fato, enfrentam privilégios estruturais dentro do próprio setor público. Questionada sobre propostas como o fim dos supersalários e a reforma da Previdência dos militares, Gleisi desconversou: “Esses temas ficarão para uma próxima reunião”, disse.
Ao defender a taxação de 5% sobre as LCI e LCA, Gleisi afirmou que “não é o agricultor que paga, é o rentista”, e classificou como “gritaria injusta” a reação do setor financeiro. Mas sua fala contrastou com o silêncio diante de corporações com histórico de blindagem fiscal, como os altos salários do funcionalismo público e os privilégios das Forças Armadas.
Pressão sobre o Congresso e narrativa de vitimização
A ministra também minimizou a reviravolta do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que inicialmente endossou a proposta do governo, mas depois passou a atacá-la publicamente. Gleisi atribuiu a mudança à “pressão de setores econômicos”, tentando deslegitimar as críticas como fruto de interesses externos, e não de erros estratégicos do próprio Executivo.
Mais uma vez, o governo opta por responsabilizar os outros enquanto falha em construir uma base sólida para reformas mais profundas. “Não houve intenção de prender o Orçamento”, afirmou Gleisi, diante da frustração dos parlamentares com o atraso no pagamento de emendas, mesmo após acordos firmados.
Medidas “estruturantes”, só no discurso
Gleisi defendeu o pacote fiscal como “estruturante”, argumentando que ele ataca privilégios tributários. No entanto, o próprio governo tem evitado enfrentar reformas realmente estruturais, como a revisão do custeio da máquina pública, o enxugamento de gastos permanentes ou uma política fiscal que não dependa exclusivamente de cortes e aumentos de impostos.
O discurso da ministra soa mais como tentativa de justificar o impasse do que como sinal de liderança. Com o clima deteriorado no Congresso, o governo corre o risco de ver sua pauta travada — e, mais uma vez, tenta transferir a responsabilidade para o Parlamento.
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