A permanência de Paulo Gonet no comando da Procuradoria-Geral da República (PGR) passou a ser considerada “insustentável” pelo jornal O Estado de S. Paulo. Em editorial publicado nesta sexta-feira (4), o veículo defendeu que o procurador-geral deixe o cargo após a divulgação de mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) que indicariam uma relação próxima entre Gonet e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo o editorial, os diálogos revelam uma relação marcada por proximidade pessoal, incluindo manifestações de carinho e encontros. O jornal também menciona mensagens nas quais Vorcaro teria tentado mobilizar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para interferir em investigações.
O Estadão ressalta que não há, segundo o material citado, prova de que Gonet tenha atendido aos pedidos de Vorcaro. O jornal, porém, questiona a atuação do procurador-geral no episódio e afirma que foi ele quem solicitou ao Supremo o arquivamento da apuração, sem análise do mérito.
Editorial questiona atuação de Gonet
Outro ponto levantado pelo jornal é a atuação da PGR em investigações que envolvem pessoas sem foro privilegiado. O editorial afirma que Gonet teria admitido a ampliação da competência do STF em determinadas apurações, mas adotado entendimento diferente quando uma investigação alcançou o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Luís Cláudio Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
Para o Estadão, a função da Procuradoria exige independência para fiscalizar autoridades, inclusive integrantes do próprio Judiciário. O jornal sustenta que a atuação de Gonet deveria ser analisada diante das novas informações relacionadas ao Banco Master.
Relação com Vorcaro é principal ponto de questionamento
O editorial também cita informações sobre benefícios recebidos por integrantes da família de Gonet. Entre os episódios mencionados estão bebidas, charutos e uma viagem a Londres para um dos filhos do procurador-geral, com despesas atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Na avaliação do jornal, a proximidade entre Gonet e Vorcaro, somada à participação do procurador-geral no encaminhamento de um relatório que fazia referência a ele, cria uma questão relacionada à suspeição.
O Estadão afirma ainda que a legislação prevê a substituição do procurador-geral em situações nas quais exista suspeição e menciona hipóteses de crime de responsabilidade relacionadas à emissão de parecer quando legalmente suspeito, à desídia e a condutas incompatíveis com a dignidade e o decoro do cargo.
Jornal defende renúncia
Diante das informações, o editorial conclui que Gonet deveria deixar a PGR por iniciativa própria.
“Gonet tem de deixar o cargo, e é melhor que o faça de maneira voluntária.”
O jornal afirma que uma saída voluntária evitaria o agravamento da crise envolvendo a cúpula do sistema de Justiça. Caso o procurador-geral opte por permanecer no cargo, o Estadão aponta o Senado como responsável por avaliar eventual configuração de crimes de responsabilidade e, se for o caso, analisar seu afastamento.
A manifestação ocorre em meio à pressão crescente sobre autoridades do STF e da PGR após a divulgação de mensagens e documentos relacionados ao Banco Master, colocando sob escrutínio as relações entre integrantes do sistema de Justiça e pessoas ligadas à instituição financeira.